DEPOIMENTO DE UM VICIADO

Em vez de encher a cabeça com trabalho,
utilize uma metade do seu tempo para ganhar dinheiro
e outra metade para gastar nas coisas boas que a vida oferece

Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e os amigos chegaram com aquele papo de experimenta, depois quando você quiser é só parar…”e eu fui na deles”.

A minha primeira experiência foi como trabalhador rural, coisa leve, da terra, não me fez mal algum. Era o princípio de tudo e achei legal, pois só trabalhava meio período.

Logo resolvi experimentar algo diferente, indo trabalhar em um escritório. Era só para relaxar; sombra e ar condicionado mas a “parada” foi ficando mais pesada, fui pegando gosto pela coisa e não demorou muito para consumir o período todo. Acho que foi aí, que viciei em trabalho.

Com o tempo, fui experimentando coisas piores. Fui trabalhar e um banco, muita gente, telefone tocando, barulho de máquinas de escrever, era um “barato” que me deixava alucinado. Já tinha necessidade de curtir aquele ambiente 12 horas por dia, e chegar tarde em casa já se transformava uma rotina.

Após o uso contínuo desse produto chamado trabalho, eu já não queria saber de coisas leves, fui atrás de algo mais pesado, mais desafiador, então já conhecendo muita gente do meio fui convidado para um emprego numa grande indústria.

Depois de muito tempo consumindo e sendo consumido pelo trabalho, como toda droga perde efeito, comecei a querer cada vez mais, mais, mais… Frequente o submundo dos cursinhos, dos vestibulares e quando dei por mim, já estava careca aplicando trotes nas ruas, pois acabara de entrar para a Faculdade.

Foi a partir daí que começou a minha decadência. Formei-me em Direito, e o trabalho começou a consumir-me mais ainda. Toda droga faz vítimas, e foi assim que meu patrão dispensou o antigo advogado e me passou a toda a sua atribuição. Como todo viciado em trabalho, adorei a ideia.

Nessa fase já não tinha mais cura pois já não obedecia as recomendações da minha família para tirar férias, trabalhava até altas horas da noite, de madrugada, domingos e feriados.

Cheguei ao ponto de montar um escritório em minha casa, só para consumir o trabalho.

Mas a fase negra ainda estava por vir, fui promovido a chefe do departamento de RH, e então pude chegar ao fundo do poço, ao limiar da condição humana, quando terminei meu curso de pós-graduação.

Neste ponto meu vício em trabalho já estava no ápice, ao ponto de achar que poderia andar por conta própria, qual seja, de viciado em trabalho, montei uma empresa e fui aliciar trabalhadores. Quantos viciados em trabalho eu fiz, já perdi a conta.

Comecei a ter delírio, a pregar coisas do tipo: para se dar bem é necessário falar várias línguas, qualidade é fundamental, cliente é nosso parceiro, etc., etc,…..

A gravidade era tanta que fui me internar numa associação de empresas, e lá encontrei pessoas como o mesmo vício, só pensavam em trabalho. Todos eram unânimes em afirmar que a concorrência neste submundo do trabalho é desleal, é stress e competição constante. E o pior, me tornei presidente desta associação.

Meu médico recomendou um tratamento muito duro, doses cavalares de um coquetel de tributos, como: PIS, Cofins, ISS, Contribuição Social, IR, e me advertiu que talvez tivesse de recorrer a tal da sonegação, muito embora seja arriscado, além dar cadeia acaba morrendo de vez.

Meu golpe de misericórdia acaba de acontecer, o que vale como atestado de óbito. Foi meu requerimento de aposentadoria. Na fila percebi o estado final das pessoas viciadas em trabalho.

Deplorável!

Se soubesse que ia acabar assim nunca teria entrado nessa.

Por isso, vos digo:

Em vez de encher a cabeça com trabalho, utilize uma metade do seu tempo para ganhar dinheiro e outra metade para gastar nas coisas boas que a vida oferece.

Se te oferecerem um emprego, caia fora que é fria, pois o vício em trabalho começa por aqui. Eu sei que você consegue! Diga não às drogas! Diga não ao trabalho.

Repassem esta mensagem que é de utilidade pública

Obs.: Situação fictícia baseada em fatos reais.

João de Araujo