A gramática no mercado de trabalho

A gramática no mercado de trabalho

Você sabia que de cada dez pessoas que passam por uma entrevista de trabalho, sete são reprovadas porque falam e escrevem errado? A repórter Fabiana Scaranzi mostra quais são os erros mais comuns e o que você pode fazer para que a língua portuguesa não seja mais um obstáculo na conquista de uma vaga de emprego.
Quem já não ouviu uma atendente falando no gerúndio? Ou mesmo já não se deparou com uma mensagem cheia de palavras resumidas, codificadas, formas de expressão que se tornaram comuns e que, sem querer, passaram a fazer parte do vocabulário das pessoas?

É aquela história: eu falo, você repete. Alguém escreve de um jeito e muitos outros vão copiar. Daqui a pouco, está todo mundo falando ou escrevendo igual e errado. Pior ainda quando se está à procura de emprego. Falar bem o português é uma exigência hoje em dia, para qualquer função. Até mesmo para quem não lida com pessoas, como um operador de máquinas.

Em Salvador, uma empresa contrata, em média, até 30 pessoas por mês e o português tem um peso muito grande no processo de seleção. Já na primeira etapa, os candidatos têm que fazer uma redação e um teste de interpretação de texto para todos os cargos – desde os administrativos até os operacionais. Os testes de português são eliminatórios e o índice de reprovação é alto: 62% dos candidatos de nível médio e 45% dos candidatos de nível superior não conseguem passar porque têm pouco vocabulário, não compreendem o texto e demonstram falta de leitura.

“A gente acredita que a comunicação tanto interna quanto externa é essencial para o bom andamento do nosso trabalho, da nossa empresa e pro resultados que a gente busca alcançar“, disse a gerente de RH Andréia Sampaio.

Não há pesquisas, mas nas grandes agências há casos em que, numa mesma seleção, sete em cada dez candidatos não passaram no teste porque cometeram algum erro de português.

Estão entre os erros mais comuns:

– concordância verbal, do tipo ‘fazem cinco anos’;
– gerundismo – ‘vamos estar fazendo’;
– gírias como – ‘dar uns toques’;
– lugares comuns, do tipo ‘a nível de Brasil’, ‘fechar com chave de ouro’;
– isso sem falar na pontuação e acentuação na hora de escrever.

“O que normalmente acontece, as pessoas participam de uma entrevista como se estivessem numa sala de bate-papo ou conversando com amigos. Então são descuidados e também pela falta de leitura. Os jovens não têm o hábito de ler. Na verdade a população brasileira tem a dificuldade com a leitura, não é hábito ler livros, ou jornais ou revistas. E isso você acaba perdendo um pouco o vocabulário, dificulta na hora do processo”, explicou Sidnéia Palhares, gerente de RH.

E não é só pra escrever não. Na hora de falar é preciso também ter uma boa fluência. Uma dica é falar pausadamente. Esqueça as gírias. E nada de gerundismo. Esse, aliás, é um problema sério principalmente nas empresas de telemarketing. Mas elas já estão mudando, ou melhor, já mudaram.

Uma empresa de telemarketing de Belo Horizonte com 4.500 atendentes. Desde a fase de treinamento, os funcionários são orientados a evitar o gerúndio – é uma preocupação com a qualidade do atendimento. Todos os meses, parte das ligações gravadas passa por auditoria. “Pra melhorar isso ainda mais nós estamos fazendo parcerias com algumas empresas, alguns institutos com professores de português, para minimizar o impacto com alguns dos nosso clientes”, explicou o superintendente Delson Diniz Júnior.

Não pense que isso só acontece em testes para cargos de iniciantes em empresas. As agências com quem conversamos foram unânimes em dizer que erram também candidatos a gerentes e outros níveis mais altos. A grande dica dos especialistas é a leitura. Quanto mais a pessoa lê, mais ela aumenta seu vocabulário e corre menos riscos de cometer um erro de português.

“Até mesmo um profissional que está dentro de uma empresa, se ele tem dificuldade em se comunicar, se ele tem erros de português, se ele tem dificuldade na verbalização e na comunicação, ele não é um profissional bem visto. Quando você escreve bem e você fala bem, você tem uma facilidade maior de ser promovido, porque você está sendo visto e vai ser um diferencial até mesmo na empresa em que você trabalha”, completou Palhares.

Fonte: Jornal Hoje – TV Globo