ENTREVISTA: com os candidatos à presidente

“Deu confusão.
Um queria criar mais empregos do que o outro.
A população brasileira seria pouco para ocupar tantos empregos gerados.
Chegaram cogitar importar argentinos para ocupar a sobra de empregos”.

Recebi uma importante missão. Uma multinacional me contratou para que em pesquisa ao mercado contratasse um presidente para a unidade do Brasil. Meu interesse inicial recaiu no atual Presidente Fernando Henrique Cardoso, mas desisti desde que foi cotado para ocupar um cargo na ONU. Descartada esta opção, me interessei pelos candidatos à Presidência da República, visto que todos mostram extrema competência para qualquer assunto abordado.

Consultei-os na possibilidade de se candidatarem ao cargo de presidente da multinacional e somente quatro candidatos se interessaram, e por coincidência os melhores classificados nas pesquisas eleitoral. Os demais não se interessaram.

No horário e local combinado lá estavam os quatro candidatos. Não vou dizer os nomes porque a regra era sigilo total, afinal não ficaria bem o povo ficar sabendo que os candidatos derrotados estavam à procura de empregos. É melhor cavar uma boquinha já, do que esperar os milhões de empregos prometidos por todos no horário eleitoral.

Para complicar, os assessores dos candidatos impuseram a regra incomum de entrevistar os quatro candidatos juntos.

É assim que aparecem nos programas de entrevistas nas televisões e vai que um fala mal do outro, motivo para requerer o direito de resposta do ofendido. Justifiquei que era uma entrevista a emprego de caráter reservado e o público não teria acesso.

Não adiantou.

Segundo a regra eu teria que fazer a mesma pergunta a todos. Vou chamá-lo de candidato um, dois, três e quatro, devido à regra de não citação dos nomes.

A primeira pergunta foi: Fale de você? A resposta foi uma coincidência incrível: todos foram rápidos em responder que são ótimos e qualquer problema transformam facilmente em soluções.

A outra pergunta: Qual a sua profissão e fale das suas experiências?

O candidato um respondeu que faz muito tempo que não trabalha. É muito experiente em eleições muito embora tenha perdido todas. Não tem profissão atual porque a antiga profissão de torneiro foi extinta. Diz ainda que não tem estudo, porém se for escolhido para alguma vaga convocará os assessores pra trabalhar em seu lugar.

O candidato dois respondeu que é economista muito embora gostaria de ser médico. Aliás, todos pensam que ele é médico. Sobre as experiências respondeu que seu forte é atacar. Aliás, ultimamente atacou fábrica de cigarros, fabricantes de remédios. O último ataque bem sucedido foi a um candidato concorrente e o colocou na lona.

O candidato três respondeu-me com um palavrão e me chamou de burro. Pode? Achei uma grosseria. Ao responder usou termos como “otário”, “mais sujo que pau de galinheiro” e outras mais. Disse que estava com pressa, porque uma mulher que tinha a função na campanha de deitar-se com ele, o esperava.

O candidato quatro me perguntou se eu era evangélico, o que respondi que eu não era o entrevistado. Ao responder a minha pergunta enrolou-me. Deu a entender que não se interessava pela vaga. Garantiu que se não for eleito terá emprego garantido com sua mulher que é candidata à governadora, dizendo que a eleição está no papo: ela vai ganhar no primeiro turno, finalizou.

Bem não tenho espaço para relatar todo o teor da entrevista, o que não foi grande coisa. Mas não poderia deixar de contar o final a vocês leitores.

Já que o clima era propício, e querendo imitar o que ocorre nos programas de televisão, fiz uma pergunta política questionando como iriam cumprir a promessa de criar milhões de empregos.

Deu confusão. Um queria criar mais empregos do que o outro.

A população brasileira seria pouco para ocupar tantos empregos gerados. Chegaram cogitar importar argentinos para ocupar a sobra de empregos. A confusão continuou e no calor da discussão terminaram se pegando no tapa.

Foi uma baixaria horrível.

Reprovei todos eles e o inconformismo foi total. Disseram que já tinham feito uma pesquisa e estavam em primeiro lugar para ocupar a vaga de emprego. Agora todos queriam a vaga. Ufa! A entrevista finalmente acabou, e me mostrou um lado bom e outro ruim.

O bom é que acabei acordando deste sonho, e o ruim é que acho que tudo que sonhei foi verdade.

Obs..: este artigo foi escrito em 22/09/2002 para o Jornal Folha de Empregos de Sorocaba/SP,
se alguém foi eleito e aprontou ou foi condenado e preso está dentro da minha previsão.

João de Araújo é pós-graduado em RH, advogado e consultor trabalhista e diretor da Abal Gestão de Serviços Ltda