MEU MUNDO: não tem carteira assinada

“É consenso entre os especialistas que o que está por vir
está mais para o mundo do trabalho
e menos para o mundo do emprego”

O mundo da carteira de trabalho assinada é maravilhoso. Recebimento de salário todo mês, vale, fundo de garantia, convênio médico, vale transporte. No final do ano tem décimo terceiro salário.

Depois de um ano de trabalho tem às férias acrescida de um terço. Se for despedido, um mês de aviso prévio e a multa de 50% aplicada com base no saldo do fundo de garantia. Tem ainda o seguro desemprego. Para o funcionário público tem a estabilidade e ainda a aposentadoria integral. Também tem o descanso semanal remunerado que começa no sábado. Para muitas faltas a lei obriga o pagamento.

Este privilégio é de apenas 25% da população brasileira. A carteira profissional com chefe, trabalho das 8 às 18 horas, promoções e aposentadoria 45 anos mais tarde, está distante para 75% da população brasileira.

Afinal quem são esses trabalhadores que vivem no mundo dos sem carteira assinada? São trabalhadores sem holerite no fim do mês, vale, cesta básica, convênio médico, vale transporte, décimo terceiro, férias, fundo de garantia, descanso semanal remunerado, seguro desemprego, enfim: sem direito a nada.

Parece ser um mundo de vida muito difícil.Então para os que assim pensam, que tal nesse mundo, a vida sem patrão, sem hierarquias rígidas nem jornada fixa de trabalho. Melhorou? Estando ou não no mundo sem carteira assinada, é bom enxergar o lado positivo dessa história, já que a probabilidade de você trocar o status de empregado e se transformar num autônomo, consultor, empresário, patrão de si mesmo, ou seja, qual for o modelo escolhido para deixar de viver sob as protetoras asas de um patrão, da empresa ou do estado e alçar voo solo aumenta, e muito dia após dia.

As pessoas precisam estar preparadas para serem empregadas em alguns momentos e trabalharem por conta em outros. A verdade é que muitos são conduzidos à vida sem patrão por motivos pouco românticos. São demitidos e, sem perspectiva de conseguir um emprego fixo no curto prazo, começam a trabalhar por conta.

E o interessante é que correm sérios riscos: de pegar gosto pela coisa. Certa vez participei um programa de televisão para discussão de assuntos relacionados com o desemprego. Um participante trabalhava por conta própria. Durante a entrevista mostrou-se descontente por estar desempregado. Após o término, consultei sob a possibilidade de encaminhar-lhe para um emprego. Fiquei surpreso quando me confidenciou: emprego jamais se hoje ganho o dobro do meu emprego anterior. Disse me ainda que a vida sem patrão era a que pediu a Deus. Finalizou dizendo que agora se sente mais entusiasmado para trabalhar, pois sabe que só depende dele e de mais ninguém.

É consenso entre os especialistas que o que está por vir está mais para o mundo do trabalho e menos para o mundo do emprego. Os empregos serão mais escassos, mas a atividade remunerada sempre vai existir.

A legislação brasileira está mais para uma pedra no caminho do trabalhador do que para facilitar a vida de quem quer ter carteira assinada. O peso dos encargos é altíssimo: o custo para assinar uma carteira é o dobro do que se paga ao trabalhador. Para baixar os custos trabalhistas, as empresas buscam alternativas de empregar o menos possível.

Se você é daqueles que desanima só em pensar na ideia de ficar sem sua preciosa carteira assinada, reavalie seu ponto de vista. Pense na possibilidade de você cuidar do seu próprio rumo. O mundo dos sem carteira sempre irá ter um lugar para quem estiver disposto ao trabalho.

João de Araújo é pós-graduado em RH, advogado e consultor trabalhista e diretor da Abal Gestão de Serviços Ltda