SIMPLIFICAR PARA GANHAR TEMPO E VIVER MELHOR

João de Araújo

A melhor maneira de viver melhor é simplificar e livrar-se de tudo que atrapalha a tranquilidade.

João de Araújo é pós-graduado em RH, advogado e consultor trabalhista e diretor da Abal Serviços & Training Ltda. e-mail – [email protected]

OLHO COM FUNDO CINZA
(INSERIR ENTRE AS COLUNAS)

“o fato de trabalhar numa
grande empresa de nome conhecido,
com boa reputação é motivo de orgulho
para qualquer profissional,
porém não lhe dá o direito
de fazer uso como seu
sobrenome.”

DESCOMPLIQUE!

Quer viver melhor? Então,
simplifique sua vida. Livre-se de
tudo o que atrapalha a sua
tranqüilidade. Essa é a receita
de Elaine St. James, uma
especialista em simplicidade

Por Michael Warshaw
Por que tantos executivos inteligentes trabalham tanto, levam uma vida tão atribulada e têm sentimentos tão ambíguos com relação ao seu sucesso? A escritora, palestrante e guru da simplicidade, Elaine St. James, 54 anos, acha que sabe a resposta. O problema, segundo ela, é que pessoas muito estressadas se recusam a reformular seus compromissos. Das duas uma: ou elas não têm segurança sobre suas convicções, ou simplesmente precisam aprender algumas técnicas para começar. “Leva tempo para arranjar tempo”, argumenta Elaine. É uma bola de neve: você não consegue arranjar tempo para fazer as coisas de que gosta se não tiver tempo para repensar no que está fazendo agora. “Levar uma vida complicada é uma ótima maneira de evitar mudanças”, diz Elaine.
A própria Elaine é um caso característico. Em 1990, ela era uma bem-sucedida investidora em imóveis, com propriedades no sul da Califórnia e em Connecticut. Também administrava uma próspera empresa de seminários e escreveu um livro de sucesso sobre investimentos no ramo imobiliário. Mas sua vida estava completamente fora de controle. Ela não estava satisfeita lidando no mercado imobiliário, “embora dedicasse de 10 a 12 horas por dia a essa atividade”. Sua extensa propriedade no campo exigia muitas horas de manutenção – e isso tornou-se mais um fardo do que um prazer. Seu marido, que adorava o que fazia, perdia 4 horas diariamente para ir e voltar de seu trabalho.

Por que ela tolerava essa inversão de prioridades? Porque estava tão ocupada levando sua vida, que “era impossível imaginar que a rotina poderia ser diferente”. Aos poucos, no entanto, as coisas começaram a mudar. Elaine prometeu trabalhar 1 hora a menos por dia. Junto com seu marido, livrou-se de coisas materiais – “livros, aparelhos, móveis” – que se amontoavam pela casa e quase nada acrescentavam às suas vidas. Mudaram-se do campo para uma casa de fácil manutenção, distante apenas alguns minutos do escritório em que seu marido trabalhava. Com o passar do tempo, essas pequenas alterações transformaram-se em uma grande mudança. “Cada um conseguiu ganhar 30 horas extras por semana”, diz Elaine. “Esse tempo adicional que conseguimos tem um valor inestimável.”

Para Elaine, a simplicidade “tornou-se um estilo de vida e um modo de ganhar dinheiro”. Elaine abandonou o mercado imobiliário para se dedicar a sua nova paixão. A editora americana Hyperion publicou seu primeiro livro sobre o assunto há quatro anos. O livro Simplify your Life: 100 Ways to Slow Down and Enjoy the Things that Really Matter (“Simplifique sua Vida: 100 Maneiras de Diminuir o Ritmo e Desfrutar das Coisas que São Realmente Importantes”) já está em sua 16a edição. Depois, escreveu uma seqüência de três livros com variações sobre o mesmo tema. Ao todo, mais de 1,4 milhão de exemplares foram vendidos. Com seus 400 conselhos práticos, Elaine revelou-se uma líder espiritual do “movimento da simplicidade”, um fenômeno popular nos Estados Unidos. Seus boletins informativos atraem inúmeros executivos dispostos a reformular sua vida atribulada.

Eis uma série de princípios e técnicas que Elaine costuma ensinar para pessoas interessadas em simplificar suas vidas:

Já está mais do que na hora

Simplificar a sua vida é, na verdade, poder controlá-la, fazer o tempo render no trabalho e em casa. Com isso, vai sobrar mais tempo para as coisas de que você gosta. Todas as pesquisas que já li chegam à mesma conclusão: um número cada vez maior de pessoas percebe que não gasta seu tempo em atividades que tragam prazer. Uma pesquisa realizada pela Time/CNN concluiu que 65% das pessoas gastam seu tempo livre em atividades que prefeririam não fazer. Isso é assustador! Qual a razão em ter uma vida atribulada se você não tiver tempo e energia para desfrutá-la?
Este é o problema: vai levar algum tempo para você se organizar e criar tempo livre. Você não conseguirá arrumar tempo se não parar para reavaliar o que está fazendo. Levar uma vida complicada é uma ótima maneira de evitar mudanças. Porém, enquanto considerarmos nosso trabalho tão vital a ponto de achar que não podemos diminuir o ritmo, não veremos o que está acontecendo em nossas próprias vidas: um casamento que não está bem, uma carreira que não está sendo satisfatória, filhos com os quais não estamos tendo contato, amizades que estamos deixando para trás. Não há nada mais perigoso do que não ter tempo.

Portanto, o primeiro passo para simplificar sua vida é fazer um pequeno investimento de tempo. Reserve 1 hora por dia durante 30 dias. Use esse tempo para refletir sobre uma simples questão: o que está complicando mais minha vida? Estou trabalhando demais? Estou em um emprego do qual não gosto? Meus filhos estão esgotando toda a minha energia? A partir daí, comece a pensar em como e o que você pode eliminar da sua vida.

Não é tão impossível quanto parece. Durante apenas um mês, saia do trabalho 1 hora mais cedo – quem vai notar? Se você não conseguir tirar mais tempo da sua jornada de trabalho, tente em casa. Durante apenas um mês, pare de ler o jornal. Libere 60 minutos de seu dia durante 30 dias, faça as perguntas certas e você se espantará com o que vai descobrir.
Menos significa mais

Esse é um princípio bem óbvio – e muitos recusam-se a aceitá-lo. Eu mesma me declaro culpada. Em 1990, decidi que precisava reduzir a desordem em minha vida e simplificar meus afazeres domésticos. Meu primeiro instinto foi pedir ajuda. Tínhamos uma faxineira para limpar a casa, um jardineiro para cuidar do jardim, um contador para organizar nossas finanças. Eu queria contratar um cozinheiro para que não precisasse me preocupar com as refeições. Meu marido pensou que estivesse louca: “Você já despende tanto tempo administrando a faxineira, o jardineiro e o contador. E agora você quer um cozinheiro?”

Ele tinha razão, não precisava de mais ajuda. Precisava de menos problemas. Foi quando iniciei o processo de simplificação. Nos livramos dos objetos que não usávamos, mas que tomavam espaço. Mudamos para uma casa menor. Fizemos mudanças em nossas vidas sociais, nossos horários como voluntários, nossas finanças e até mesmo em nossas carreiras. Quanto menos fazíamos mais tempo conseguíamos criar. O mesmo princípio se aplica ao trabalho. Uma vez que decidi simplificar minha vida, uma das primeiras coisas que fiz foi diminuir minha jornada diária de trabalho em 10%. Reformulei meu horário de 10 horas de trabalho por dia de forma que terminasse 1 hora mais cedo. O que aconteceu? Minha produção total não caiu – e consegui criar 5 horas extras por semana. Gradualmente cortei 1 hora a mais por dia e, novamente, não houve queda de produção – mas um tremendo aumento em satisfação. Mudei minha maneira de trabalhar sem alterar a quantidade de trabalho produzido. Não respondia às chamadas imediatamente após recebê-las. Não ia a todas as reuniões para as quais era convidada. Dobrei o tempo estimado para que os projetos fossem executados e comecei a trabalhar estabelecendo prazos novos e mais realistas.

Esse foi um exemplo concreto de que “menos significa mais”. Estava trabalhando um número menor de horas e, no entanto, estava me dedicando mais ao trabalho. Meu marido e eu calculamos que cada um de nós conseguiu criar 30 horas extras por semana. É um tempo que não tem preço.

Basta dizer não

O dramaturgo Jules Renard escreveu: “O homem verdadeiramente livre é aquele que pode declinar um convite para jantar sem ter que dar uma desculpa”. Segundo essa definição, poucos homens são livres. Isso é um problema. Você não consegue levar uma vida simples se não souber dizer não. Ninguém consegue manter mais de três prioridades. Se você tem um emprego do qual gosta, essa é uma prioridade. Se você tem uma família, é outra prioridade. Há espaço apenas para mais uma. Talvez seja estar em forma, talvez ser voluntário em sua igreja – mas é só isso. A maioria das pessoas consegue entender isso intuitivamente. Mas elas continuam se comprometendo com muitas coisas e complicando suas vidas.

Isso nos remete a Renard: “Em nossa cultura voltada às grandes conquistas, as pessoas acham que precisam de uma razão para dizer não a uma nova tarefa”. É por isso que você tem que aprender a dizer não. Comece reservando, no trabalho, um tempo para você. Considere esse tempo tão importante como qualquer outro. Então, quando alguém convidá-lo para uma reunião que não queira ir, você pode dizer “sinto, mas já tenho um compromisso”. Fora do escritório, aprenda a ser mais honesto. Se alguém o convida a ser membro de um grupo voluntário, seja direto: “Não estou disponível para nenhum novo compromisso nos próximos seis meses”.

No começo é difícil. Mas, quanto mais freqüentemente você disser não, mais fácil se tornará. E, quanto mais você disser não, menos freqüentemente você será o primeiro a ser requisitado. Hoje as pessoas não me pedem nada. Descubra quais são suas prioridades e diga não para todo o resto.

Seus bens são responsáveis por 90% de seus problemas

Trinta anos atrás, a maioria das famílias tinha um rádio e uma televisão. Hoje, um número cada vez maior de famílias tem um rádio, uma televisão e um telefone em cada cômodo, além de aparelhos de fax. E a lista não pára aí. O resultado é que temos que trabalhar mais tempo para pagar por toda essa parafernália eletrônica – o que nos deixa menos tempo para usufruir tudo o que trabalhamos tanto para comprar. E objetos não custam apenas dinheiro. Também consomem tempo para instalar, consertar, manter, ouvir e assistir. E a grande ironia é que todos afirmam que justamente o que mais querem é ter mais tempo.

Este é o motivo pelo qual encorajo as pessoas a, uma vez por ano, arrumarem seus armários e a se livrarem de tudo aquilo que não foi usado nos últimos 12 meses. Não me refiro a antigüidades ou a objetos de valor sentimental. Refiro-me às coisas que compramos e que não acrescentam nada às nossas vidas. Não compre por impulso. Uma técnica que usamos é a lista dos 30 dias. Quando eu e meu marido encontramos algum produto que desejamos muito comprar, incluímos na lista e esperamos. Ao final dos 30 dias, nos perguntamos: ainda precisamos disto? Na maioria das vezes nem conseguimos nos lembrar por que ficamos tão empolgados com aquele objeto. Existe uma diferença entre simplicidade e austeridade. Não quero influenciá-lo a levar uma vida austera. Mas coisas em excesso são coisas em excesso.

O que realmente interessa é o que realmente interessa

Há muitas razões para que as pessoas não estejam fazendo o que elas realmente querem. Para começar, muitos de nós não sabem o que querem. Quando eu ainda trabalhava no setor imobiliário, marquei uma entrevista com um consultor de carreira que me disse: “Por que você não pára de trabalhar por um ano e descobre o que realmente quer fazer?” A sugestão me deixou extremamente confusa. Meu horário não me permitia tirar um dia de folga, um ano então, nem pensar! No entanto, aquela sugestão, por mais louca que pudesse parecer a princípio, forçou-me a questionar aspectos básicos da minha vida profissional. Na verdade, passei um ano longe do meu trabalho. E, se não tivesse feito isso, teria ficado no setor imobiliário a vida inteira.

Se você passar anos sem saber o que quer fazer em sua carreira, em sua vida familiar, com suas obrigações cívicas, vai ser difícil descobrir de uma hora para outra. Para a maioria das pessoas, é mais fácil continuar fazendo o que sabe que não quer fazer ou o que não se importam em fazer. Ao simplificar sua vida, você terá mais tempo para descobrir o que realmente é mais importante para você.

12 maneiras de simplificar sua vida
Peça demissão de qualquer empresa que realize reuniões improdutivas.
Aprenda a viver com menos informações: pare de assistir aos noticiários.
Trabalhe na mesma cidade onde mora, ou more na mesma cidade onde trabalha.
Durma às 9 da noite pelo menos uma vez por semana.
Viva com metade de seu salário e economize a outra metade.
Pergunte sempre: “Isto vai simplificar minha vida?”
Mude para uma casa menor.
Guarde a sua lista de compras numa gaveta. Abra a gaveta depois de um mês e só compre o que você continuar precisando.
Concentre sua conta, aplicações e cartão de crédito num único banco.
Esqueça de retornar algumas ligações que a sua secretária eletrônica recebeu.
Falte a algumas reuniões e eventos. Diminua a sua agenda.
Trabalhe 1 hora a menos por dia.

Não simplifique. Complique!
Por Paulo Angelim*

Não, eu não me equivoquei no emprego do dito popular. Simplesmente penso que está havendo um exagero perigoso nessa história de simplificar tudo. Os norte-americanos são especialistas nessa matéria e, às vezes, se dão mal. Até usam uma sigla para difundir o conceito: KISS (Keep It Simple Stupid mantenha-no simples, estúpido numa tradução livre). Jack Welch, ex-CEO da GE, já declarou: “Simplicidade, essa é a regra do jogo. Desconfie sempre quando começam a lhe pintar um quadro muito complexo de determinada situação empresarial e de negócios. Reduza tudo a sua forma mais simples e terá metade do caminho andado.” Desculpe-me, Jack, mas a coisa não é bem assim. Pelo menos, não deveria ser. O risco de simplificar tudo está em ignorar a complexidade de elementos importantes que determinam a existência de um problema. Veja bem, diante de qualquer situação que lhe exija uma tomada de decisão, você tem pela frente dois desafios. Primeiro entender da melhor forma possível o problema. Podemos chamar esta etapa de PROBLEMATIZAÇÂO. Depois de conhecidas as nuances do problema, suas implicações, causas e conseqüências, chega a hora de buscar a SOLUÇÃO do mesmo. Pois bem, se valer a máxima de manter tudo da forma mais simples possível, você estará correndo o grande risco de, na hora da problematização, ser simplista, não questionando o suficiente sobre o problema para melhor compreendê-lo. Mais importante que a solução de um problema é a correta formulação do mesmo. “O problema está 50% resolvido se estiver bem formulado”, ensinava objetivamente o pai da relatividade, Albert Einstein.

Reflita, agora, com franqueza: quantas vezes você já passou por situações desagradáveis, simplesmente porque tomou atitudes apoiadas em informações falsas ou insuficientes? Tudo aquilo poderia ter sido evitado se você tivesse se permitido questionar o suficiente sobre o problema. Lembra aquela situação em que você se saiu com o clássico “mas se eu soubesse disso antes, eu não teria agido assim”? Pois então, houve simplificação do processo de problematização. Quem já passou pelas memoráveis reuniões de Qualidade Total deve lembrar bem do Diagrama de Ishikawa, ou espinha de peixe. Ele é um retrato fiel da importância de se ter a visão mais complexa possível do problema, atacando-o nas causas. É lógico que me refiro a situações que não são emergenciais. Não tem o que discutir: diante do fogo, a atitude mais correta é correr dele ou ficar para apagá-lo. Mas veja que coisa interessante: mesmo numa situação dessa, ainda caberia uma rápida problematização, eu disse rápida, sobre qual a origem do fogo. Dependendo do tipo de fonte (químico, elétrico, etc…), a solução deverá ser a adequada, sob o risco de se aumentar as conseqüências do problema.

Mas, também, tem o outro lado da moeda, e é tão arriscado quanto simplificar a formulação do problema. É quando os complicados por natureza procuram, de todas as formas possíveis, achar chifre em cabeça de cavalo. Ou seja, tentam a todo custo e com prazer, encontrar aspectos que não existem no problema. E quando não encontram, são capazes de ardilosamente inventá-los. Nessa hora, cabe a quem lidera o processo de problematização trazer o grupo de volta ao foco. Isso não tem nada a ver com simplificar o processo. É uma questão de foco. Uma questão de não se perder entre as teias que saem do problema. Uma questão de parar de falar sobre o sexo dos anjos, ou se o topete do Itamar é natural ou produzido. Simples, não!

Agora, depois do problema devidamente formulado, a partir de questionamentos complexos sobre o mesmo, eu lhe peço só uma coisa: pelo amor de Deus, busque as soluções mais simples possíveis. Neste caso sim, vale o KISS dos americanos.

Resumindo: não simplifique a formulação do problema, simplifique sua solução. Está vendo como fica simples quando a gente complica?!