REESCREVENDO A FÁBULA: A CIGARRA E A FORMIGA

Já vi esse filme acontecer
e vai acabar dando “caca”.

Estava pesquisando na internet e encontrei a fábula em que a formiga trabalhava duro, de sol a sol, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava. A cigarra viu aquilo e pensou: – Que idiota!

Passou o tempo todo dando gargalhadas, cantando sem parar. Ao chegar o inverno, enquanto a formiga estava aquecida e bem alimentada, a cigarra não tinha abrigo nem comida; morreu de frio e fome.

Moral da história: Trabalhe duro! Seja previdente e responsável, pense no dia de amanhã.

Mas aí resolvi reescrever esta fábula à brasileira, e ficou assim:

Era uma vez uma formiga que trabalhava duro no sol escaldante do verão tropical deste país abençoado por Deus, construindo sua toca e acumulando suprimentos para o inverno que se aproximava.

A cigarra, sindicalista formada no Centro de Treinamento do MST acusou: – Que idiota! Trabalha para o patrão explorador e o FMI! E passou o verão desdenhando a formiguinha, dizendo que ela não tinha consciência da luta de classes, enquanto fazia panfletagens, piquetes, assembléia e cantava e cantava.

Ao chegar o inverno, a cigarra, tremendo de frio e fome, vestiu sua camiseta vermelha e armou uma barraca de plástico na entrada da toca da formiga, fincou a bandeira da CUT e com apoio do PT, convocou toda a imprensa para uma entrevista exigindo explicações: – Por que é permitida à formiga uma toca aquecida e boa alimentação, enquanto às companheiras estão expostas ao frio e morrendo de fome?

Todos os órgãos de imprensa compareceram à entrevista. As imagens dramáticas do Jornal Nacional da Globo mostraram uma cigarra em deplorável condição, sentada num banquinho debaixo de uma barraca de plástico preto e mais adiante mostraram a formiga com ar de burguesia em sua toca confortável e com uma mesa farta e variada.

O programa Brasil Urgente do Datena e Cidade Alerta , apresentaram quadros ininterruptos mostrando a cigarra cambaleante. Os apresentadores afirmavam que o povo brasileiro fica perplexo e chocado com o contraste, enquanto via subir a audiência do IBOPE.

A BBC de Londres manda ao Brasil uma equipe para fazer uma reportagem especial a ser distribuída em rede para toda a Europa. A CBS nos EUA interrompe uma entrevista coletiva sobre a guerra no Iraque, para mostrar como anda a cidadania das cigarras brasileiras. Já o Jornal New York Times afirmou na sua edição do dia seguinte, que o Brasil é um país de seres humanos gordos, bebuns e cigarras famintas.

A notícia provocou uma coletiva de José Dirceu, que ressalvou não ter verba para atender cigarras famintas visto que os recursos devem ser dirigidos ao programa Fome Zero do governo Lula, mas cogitou que para resolver o problema enviaria uma Emenda Constitucional com aumento da carga tributária aos prestadores de serviços.

No Congresso Nacional a oposição consegue assinaturas para instalação de uma CPI, porém a mesma não é efetivada porque os líderes não indicam os membros da Comissão. O governo atua no sentido molhar as mãos de alguns congressistas no sentido de retirarem as assinaturas da CPI.

A cigarra, diante desse “auê” todo, mais e mais convencida de seus “direitos”, e com apoio das companheiras cigarras, seguiram em marcha pela floresta e invadem o buraco da formiga e lá acampam.

A formiga pede ajuda à polícia e esta informa que não dispõe de efetivo para atender ocorrências dessa natureza e que também por orientação do Ministro da Justiça, deseja evitar confronto com os “SEM TOCAS”. A formiga recorre à justiça para obter a reintegração de posse da toca, mas o pedido é negado; o juiz embasou sua decisão no Direito Econômico, sentenciando que a formiga não provou a produtividade da toca.

O Ministério da Reforma Agrária desapropria a toca da formiga, por não cumprir sua função social e a entrega às friorentas e desnutridas cigarras. O Ministério da Justiça examinando jornais antigos descobriu que a cigarra foi presa no passado, por promover algumas greves, piquetes, assaltos a bancos e sequestros (todos classificados como crimes políticos) e fez a sua inclusão no grupo dos perseguidos políticos com direito à indenização federal igual à do Carlos Heitor Cony e pensão vitalícia igual à do Lula.

Chega novamente o verão, as formigas trabalham como sempre e as cigarras alegremente fazem panfletagens, e muita cantoria, porém fundam seu partido político e com apoio dos sindicatos, movimentos populares e trabalhadores desempregados almejam voos mais altos rumo a Presidência da República.

Moral da minha história: já vi esse filme acontecer e vai acabar dando “caca”.